sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O Reino da Araucânia e Patagônia II

O Deserto da Patagônia não é feito de areia ou pedregulhos, mas de moitas rasteiras, espinhentas, com folhas cinza, que exalam um cheiro amargo quando esmagadas. Diferentemente dos desertos da Arábia, não acarretou nenhum excesso dramático do espírito, mas ocupa um lugar no registro da experiência humana. Charles Darwin achou irresistíveis suas qualidades negativas. Ao recapitular A viagem do Beagle, tentou, infrutiferamente, explicar por que, mais do que qualquer uma das maravilhas que vira, aquelas "extensões áridas" provocaram tão funda impressão em sua mente.
Na década de 1860 W.Hudson veio até Río Negro à procura de aves migratórias que passavam o inverno na região da La Plata, onde ele residia. Anos mais tarde recordou a viagem, filtrada pela pensão em que vivia, em Notting Hill, e escreveu um livro tão plácido e sadio que, perto dele, Thoreau parece um orador exaltado. Hudson dedica um capítulo inteiro de Idle days in Patagonia (Dias de lazer na Patagônia) a responder à indagação do sr. Darwin, e chega à conclusão de que as maravilhas do deserto descobrem em si mesmas uma tranquilidade primordial (também conhecida pelo mais simples dos selvagens), que é talvez idêntica à Paz do Senhor.
Na época da visita de Hudson, Río Negro era a fronteira setentrional de um reino inusitado, o qual até hoje mantém uma corte no exílio em Paris.

Trecho extraído do livro "Na Patagônia" de Bruce Chatwin

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pela sua participação e opinião.