quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Um túnel no caminho

Adelaide planejando o roteiro da viagem

Entrada do túnel "Las Raices" (do lado de fora ainda asfalto, mas dentro...)
Neste período pré-viagem de preparação e planejamento, a Adelaide (Garupa), tem se dedicado a esquadrinhar os mapas, traçando o roteiro, pesquisando os postos de abastecimento e informações sobre os locais e lugares para pernoitarmos. Através deste trabalho, já alteramos o roteiro original, e uma das mudanças é nos determos um ou mais dias na região dos lagos e vulcões chilenos. Para isto não poderemos subir o Chile até Santiago e dali a Mendonça, portanto a Adelaide acabou sugerindo um outro trajeto, porém neste novo roteiro nos depararemos com um túnel (túnel Las raices) que possui 4.538 metros, 4 metros de altura e largura de 2,7 metros, ou seja, passa somente um carro por sentido, por isto um semáforo em ambas os lados organiza os fluxos.
Tudo certo, para passarmos por este túnel, até a Adelaide ler o relato do Chardô. Acompanhem, leiam e vejam se ela tem razão em não querer mais ir por este caminho (eu particularmente acho que ela está exagerando). Tirem suas conclusões com a leitura do texto, vale a pena:

Um Túnel no meio do caminho

(...) Sigo por um asfalto bom com alguns trechos ripiados em manutenção e o visual de montanhas nevadas bem próximas à rodovia, e entro no Chile. Na aduana chilena são bem mais organizados e rápidos.
Hernan havia me orientado a seguir pelo asfalto, passando por Lonquimay, e cruzar um túnel que fura a montanha. Teria a possibilidade de contornar o túnel por uma estrada ripiada, o que ele desaconselhou, já que toda a rodovia até Temuco é asfaltada.
Estou na boca do túnel Las Raices, um semáforo com o vermelho ligado impede de continuar e um homem na casinha de madeira me avisa que pagarei pedágio no outro lado do túnel.
- E moto paga?
- Também paga - responde o homem com um rádio walky-talky na mão.
Tenho que esperar, pois o túnel só permite o trânsito em um sentido, alternado a cada intervalo de tempo, já que é estreito e foi construído em 1939 para passagem de trem. Arrancaram os trilhos, mas as dimensões continuam as mesmas e uma placa mostra as características do túnel: largura do rodado 2,7 m, altura máxima 4,0 m, comprimento 4.538 m (isto mesmo 4,5 km de extensão), peso máximo 15 toneladas.
O sol está forte e o dia começa a esquentar, mas continuo vestido com minha jaqueta, esperando para seguir em frente a qualquer instante. Enquanto aguardo o sinal verde, vou falar com um chileno em uma caminhonete velha.
Comento sobre o calor e ele me avisa que em seguida irei me refrescar, pois chove bastante dentro do túnel, água que jorra do teto.
Vários carros em sentido contrário, que saem pela boca do túnel, já passaram. Agora em menor número, a seguir um intervalo sem fluxo, e abre o sinal. Uma pickup que estava estacionada mais à frente se apressa e avança túnel adentro - o motorista deve conhecer bem o trajeto. O chileno da caminhonete me dá preferência, entro no túnel e logo sinto que vai ser terrível a travessia.
Escuridão total, farol da DR650 com péssima iluminação, não enxergo nada devido à brusca variação de luminosidade e à lenta adaptação da minha visão à escuridão. Levanto rapidamente a viseira e sou atingido por pingos da água que verte do teto. Poças de água na única e estreita pista, escorregadia, que agora vejo que será toda de rípio. Existe um trilho mais compactado pelo trânsito das rodas dos carros, mas com buracos cheios de água. No centro a brita solta e nas laterais valetas profundas para escorrer a água que cai, só falta encontrar pelo caminho algum dormente do antigo trilho de trem.
Quase não enxergo e piloto mais pela noção de distâncias da lateral em função das luzes da sinaleira da pickup da frente, que vai se distanciando rapidamente, do que pela visibilidade do farol da moto - me envolvi em uma péssima situação.
A moto dança bastante e fico preocupado porque às vezes sinto que estou muito próximo às laterais, são curvas dentro do túnel. Surge um buraco maior no trilho. Entro um pouco atravessado e a moto sai para o lado esquerdo, a roda da frente entra na valeta lateral e não consigo voltar, a moto vai ao chão e sou arrastado junto com ela por alguns metros sobre as pedras redondas da lateral, já que vinha a uns 50 km/h. Logo me vem o pensamento, como num flash, de que acabou a viagem como quando encontrei Jakye.
Fico preocupado com o chileno da caminhonete que vem atrás, ergo os braços ainda no chão, mas eles estão bem distantes. Levanto lentamente com forte dor na perna direita. O motor da moto ainda funciona, desligo pelo botão que corta a ignição. A luz do farol ilumina as pedras maiores que compõem a vala lateral, a parede do túnel inclinada que segue na escuridão em formato de arco e a bolha torta.
Agora, com as luzes do carro que estão chegando, consigo ver melhor o tamanho do estrago. A bolha de proteção quebrada e dependurada na fixação inferior, protetores do lado direito tortos. Quase não consigo apoiar a perna direita no chão devido à dor. Minhas luvas estão todas enlameadas. O chileno da caminhonete e outros motoristas param próximo e descem dos seus carros para ajudar. Dois homens tentam puxar a traseira da moto para cima, mas está muito pesada e a valeta dificulta pela inclinação da borda quase vertical. Então empurram enquanto ligo o motor sem subir na moto e solto a embreagem tracionando a roda para poder sair da valeta.
Conseguimos retirar a moto da vala, agradeço e, com toda a adrenalina, subo rapidamente para não atrasar a fila que está parada dentro do túnel.
Vou com cuidado, apavorado com a escuridão, baixo mais ainda a velocidade. Mais buracos, mais uma forte dançada na traseira, dessa vez acelero e jogo a moto para o centro sem nenhuma visibilidade. Quase vou ao chão novamente neste rípio escorregadio.
Não tem como desistir, parar ou voltar, tenho que seguir em frente com o que me colocaram no caminho, fui jogado num túnel estreito e com curvas, pista mais estreita ainda com valetas laterais, largaram água, brita solta, buracos, tiraram a luz e ainda colocaram carros com faróis ligados para me ofuscar pelo retrovisor, é quase impossível ficar em cima da moto.
Surge um ponto de luz no caminho, é a famosa luz no fim do túnel que tanto quero alcançar sem cair novamente. A boca de luz na frente aos poucos aumenta de tamanho, mas demora uma eternidade para alcançá-la, pois devo estar distante mais de 1 km.
O dia se faz novamente, à 11 horas da manhã. Desço da moto e avalio melhor: bolha quebrada, protetores tortos, moto enlameada, bagagem torta, tubo de PVC, onde carrego câmaras e reparos de pneus, sem a tampa e quebrado. Felizmente os protetores laterais, tanto dianteiro quanto traseiro, pouparam a moto de maiores danos. Minha jaqueta de cordura rasgada no ombro direito, calça de couro picotada e toda a perna direita com muita dor.
(...)
Trecho extraído do Livro: "Ushuaia, uma aventura de moto à Terra do Fogo cruzando os Andes e a Carretera Austral”, do motociclista Chardô.

3 comentários:

  1. Parece arriscado! Pensem bem se vale a pena.

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  2. Parece arriscado! Pensem bem se vale a pena.

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  3. Olá, aventureiros...
    Tudo bem com vcs?

    Leonardo

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