quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O Livro do Godoy: Viajando pela Rota Transiberiana


Já faz um tempo que quero aqui publicar meu comentário a respeito da leitura de um dos livros do Guillermo Godoy, "Viajando pela Rota Transiberiana". Mas antes de comentá-lo é importante que eu fale um pouco a respeito do autor. Pois bem: O Guillermo Godoy é hoje um ícone no mundo do motociclismo de longas viagens (Motociclismo que denomino de Mototurismo ou Motoviagem). Godoy não é somente merecedor deste título pelos seus feitos motociclísticos. Sem dúvida que estes já o credenciariam para tal, mas na esteira destas realizações temos um homem de elevadíssimo caráter e integridade. Godoy, com 65 anos, nos idos de 1997, empreende uma viagem com o objetivo de cruzar a Transiberiana. Atentem para a data. Estamos falando de um período imediatamente posterior a Glasnost e a Perestroika lideradas por Mikhail Gorbachev premier russo, que capitaneou a democratização da URSS e iniciou a derrocada do sistema totalitário e corrupto do partido comunista soviético. Vejam só, estamos falando de um motociclista com 65 anos de idade, que planeja e realiza uma viagem, ainda hoje das mais inusitadas, para a Sibéria de tantas histórias e mistérios. E hoje vemos motociclistas na flor da idade se queixando da vida e das dificuldades e adversidades de uma viagem de motocicleta onde os destinos mais comuns da maioria dos motoviajantes brasileiros são em sua maioria a América do Sul. Além destes componentes, merece ressaltarmos a sensibilidade e boa pena deste escritor, que como disse, usando da mais pura sensibilidade do viajante engajado em seu projeto, ainda apesar da idade e experiência, se considera um aprendiz. Ele nos remete a visão e relato dos lugares, paisagens e experiências de um país desconhecido, com uma língua desconhecida e difícil, e do sofrimento que traz a distância de sua família, especialmente de sua filha Patrícia, grande parceira também de outras tantas viagens. Godoy sofre, se diverte, se experimenta, enfrenta lobos em plena noite gelada da Sibéria e passa a noite dormindo em uma barraca as margens desta monumental ferrovia, onde tem o incrível privilégio de assistir a poucos centímetros de distância de onde estava, a passagem do trem Transiberiano. Um fato, realmente sem precedentes. Quem já passou por isto? Confiram este fabuloso trecho:

"Pouco antes da meia-noite, um leve tremor na terra e um estranho barulho na distância, me fizeram acordar com certa preocupação. Nesse momento, Ener gritava de dentro do seu iglu: É o tremor de um terremoto!!!...
Abri o fecho da minha barraca e apesar do frio, fiquei observando com a cabeça de fora ao longe, um poderoso facho de luz que iluminava a noite negra e gelada.
O trem !! O trem !!
Gritamos os dois ao mesmo tempo, cheios de euforia.
Enquanto isso, o tremor de terra aumentava cada vez mais, e, o poderoso refletor, penetrava na noite, iluminando os trilhos. De repente, as motos e as barracas e nós mesmos, ficamos envolvidos por intensa e estranha luminosidade.
No preciso momento em que a luz nos atingiu, escutamos um apito estridente e prolongado, que rasgou brutalmente, o silêncio da noite.
Fiquei totalmente impactado com essa visão quase fantasmagórica e aquele som cada vez mais crescente. Parecia que "essa coisa", vinha com toda a fúria, bem em cima de nós.
Durante vários minutos, emocionantes, durante os quais esgotei minhas reservas de adrenalina, o trem Transiberiano, todo iluminado, passou como um vendaval, bem ao nosso lado, rugindo e fazendo vibrar a terra e muito mais, meu coração. Consegui contar treze vagões e duas locomotivas.
Pouco a pouco, o barulho e a luz do trem, foram diminuindo até desaparecer. Em questão de minutos apenas, em torno de 1000 pessoas, tinham passado ao nosso lado, quem sabe com que destino, cada um !!
Me perguntava,..... quantas pessoas haveria no mundo, que já viram passar o expresso Transiberiano, no meio da Sibéria, à noite e bem ao lado da sua barraquinha?? Provavelmente nenhuma. Eu era um privilegiado. Naquele momento, eu agradeci a Deus por ter a oportunidade de viver essa rara emoção." (Op. cit. pág. 165)

Nem tudo foram flores nesta aventura, tanto que abordados pela polícia soviética e carentes de uma mera formalidade, são obrigados, quase concluindo a travessia, a retornar ao ponto de partida, o que apunhala de forma violenta a moral do grupo (Guillermo tem a companhia de Ener, seu amigo Indiano, proporcionador das mais inusitadas e cômicas situações nesta viagem). Recuperados retomam a viagem, agora com novo destino. Este livro merece sem dúvida a leitura. Hoje Guillermo está com 77 anos e não descansa, pelo contrário, possui um vigor de menino. Médico, Argentino de nascença, mas Brasileiro de coração, Guillermo mora em Florianópolis. Quem visita seu site, verá que ele planeja uma volta ao mundo. Também agora recebi a notícia da publicação de seu último livro onde ele conta a sua experiência de tentar cruzar as três Américas do extremo sul (Ushuaia-Argentina) ao extremo norte (Prudhoe Bay - Alaska). Mas este é um tema para um próximo post. Por hora, fiquem com a sugestão deste livro do Godoy, que pode ser adquirido através das instruções constantes em seu site.

2 comentários:

  1. Caros amigos Alvaro e Adelaide, foi com alegria e emoção que encontrei no Blog de vcs. esta cálida homenagem a minha viagem pela Rota Transiberiana.
    Lendo o relato da passagem do trem, voltei no tempo e quase que senti a terra tremer e os lobos uivar. Muito obrigado pela emoção que me proporcionaram, pelo estímulo, pela força, pelo carinho. Minha próxima viagem é a volta ao mundo e justamente pessoas como vcs, são as que me estimulam para essa viagem de 85.000 Km.
    Um grande abraço. Querer, é poder !!

    ResponderExcluir
  2. Viajar e ainda mais com uma das suas motocicletas preferidas não tem preço.

    ResponderExcluir

Obrigado pela sua participação e opinião.