segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Uma homenagem a piloto de nossa nova aventura

Transcrevo abaixo um dos textos mais emocionantes e emocionados que já fiz. Ele se refere ao relato do último (25°) dia de nossa viagem ao Fim do Mundo e acabou sendo um tributo e homenagem a mãe do Artur, esta guerreira, que agora é a piloto desta viagem que estamos fazendo. Nesta viagem de gerar e criar um filho, eu sou o garupa e a Adelaide a piloto.


Chegávamos pela BR 290 em Minas do Leão, logo em seguida, Minas do Butiá, mais a frente Arroio dos Ratos. Conhecia bem esta estrada em função de várias viagens que fizera a Bagé, quando lá trabalhei, e sabia que dali a 15 km chegaríamos à praça de pedágio e após atravessarmos a cancela se descortinaria sob os nossos olhos a bela e amada Porto Alegre iluminada, visão e sensação ímpar, que não têm preço e que sempre me enchia de emoção. Mesmo na época que trabalhava em Bagé e mantinha casa em Nova Petrópolis e por conseqüência, deste ponto, até Nova Petrópolis precisaria ainda rodar mais 150 km dos 470 km da distância total do percurso, chegar aqui e atravessar a cancela do pedágio me fazia me sentir em casa. Estávamos já rodando a mais de 18 horas, já era 1:00 da madrugada do dia 15, ou seja, já adentrávamos o 25° dia da Viagem ao Fim do Mundo, e faltava pouco mais de 40 km para nosso apartamento na Zona Sul, pertinho do maravilhoso Guaíba. Desde que havíamos entrado no Uruguai, deixando para trás a Argentina, a polícia camineira e começado o trecho bucólico, simpático e deserto que separava Paysandú de Riveira, eu era tomado por uma forte emoção que me fazia rememorar não só a viagem, mas também todos os meses anteriores de preparação, planejamento, sonho, engajamento, mas de tudo o pensamento que mais me comovia, me fazendo chorar, era o quanto a Adelaide foi uma forte corajosa companheira. Ainda agora ao escrever este derradeiro e último diário, este sentimento ressurge, fazendo com que os olhos fiquem marejados. Preciso me segurar para que as lágrimas não venham. Lembrar que sempre, enfrentando ou não adversidades, o jeito de ser de minha companheira fazia com ela não se intimidasse ou se abalasse com nada. Frágil, mas forte. Calma, mas firme. Mesmo na roupa de cordura e com capacetes que nos fazia parecer astronautas ela não conseguia deixar de esconder a sua meiguice. Pensava o quanto ela foi verdadeiramente parceira e peça chave para o sucesso da empreitada. Metódica, organizada, mas fundamentalmente zelosa, carinhosa por tudo que levávamos, equipamentos, roupas, utensílios (este é o jeito da Adelaide = empoeirados, sujos, suados, ou não, ela sempre fazendo questão de manter tudo em ordem, acionando em mim a implicância de lembrá-la que estávamos em uma viagem e que podemos negligenciar algumas coisas. Qual o problema de andarmos vários dias com as roupas sujas e suadas? Não para a Adelaide, tudo deveria estar sempre organizado, e portanto fazia o possível para que isto ocorresse. É seu jeito...). Sua dedicação anterior, assumindo de cabeça e alma a função de desenhar o roteiro e pesquisar os pontos que conheceríamos fez dela a melhor de todas as navegadoras, o que em muitas situações me surpreendeu, pois parecia que ela já havia estado naqueles locais. O mapa que nos guiou, cuidadosamente colado folha a folha com adesivo e minuciosamente estudado quanto aos pontos de abastecimentos e locais de pouso foram fundamentais para a viagem. Ia lembrando de tudo isto, de seu amor e dedicação por tudo que faz e me emocionando, e mesmo pilotando buscava a mão dela, como que para demonstrar de forma silenciosa a minha gratidão por ela fazer parte de minha vida. Laços que se fortalecem ainda mais, companheirismo que cresce, sensações impagáveis que na verdade são manifestações das mudanças, mesmo imperceptíveis que uma aventura como esta causam no subconsciente e consciente de nossas mentes. Novamente, naquela madrugada, com as luzes da nossa cidade se apresentado, estas reflexões voltaram com força. Parece que partimos ontem? Tentava ainda me lembrar de nosso sentimento, de nossos temores antes da partida, o quanto iniciaríamos uma jornada diferenciada, não convencional e agora, após quase 13.000 km, 3 países visitados, 25 dias de viagem e termos alcançado o Fim do Mundo, termos caído e novamente levantado, concluíamos que tudo foi muito simples, e vários dos temores realmente eram frutos de nossa imaginação. As possibilidades estão ao nosso lado, basta partir. Meu maior temor antes da viagem era o de não partir, o de desistir. Felizmente os anos e a bagagem e experiência de vida vão acrescentando a nossa personalidade convicções e persistência para não desistir. Estávamos em casa, estávamos na querida Porto Alegre, logo estaríamos na Zona Sul em nosso amado apartamento. Levantava o braço esquerdo com os punhos cerrados socando o ar como forma de comemoração de uma viagem, iniciada e concluída. Chegar neste ponto me emocionou tanto ou mais que a chegada a Ushuaia. Havíamos completado o percurso e estávamos de volta, felizes e com a mais absoluta saúde. Uma prece a Deus ainda na moto por tudo que ele tinha feito e proporcionado, mas principalmente pela maravilha que é este mundo que ele criou. Chegávamos à Avenida Beira Rio, bela e agora toda iluminada, logo estávamos entrando na Diário de Notícias, e a visão do novo shooping iluminado me fez lembrar do cinema que ainda neste final de semana curtiríamos. A ciclovia me lembrou que logo estaríamos novamente fazendo nossas caminhadas e corridas. Que sensação gostosa é esta de chegar. Apontamos e lá estavam a Wenceslau e logo nossos apartamentos. Embicamos a moto no portão de entrada, o vigilante, Seu Luis (o mesmo que tirou a nossa foto quando partimos), o abriu manualmente. Estacionei a moto, saltamos da moto e cumprimentamos o seu Luis. Perguntei a ele: - lembra que há 25 dias atrás o senhor tirou uma foto? - Lembro, respondeu. - Pois é, agora o Senhor vai tirar outra foto, porém naquele dia a moto tinha 246 km, hoje ela está com 13.000 km. Tiramos a foto e olhei para Adelaide e disse: - Obrigado por tudo, lhe abraçando, e ela também agradecendo. A emoção veio forte, e pudores de uma educação machista, me fizeram desviar o olhar e imediatamente iniciar a desmontagem dos equipamentos. Antes de irmos para o apartamento, como muitas vezes fizera nesta viagem, abraçado a Adelaide com o braço estendido segurando a máquina fotográfica, tiramos a foto de número 3.632, à última da Viagem ao Fim do Mundo. Esta aventura terminara, estávamos em casa, cumprimos com os nossos objetivos, conhecemos locais maravilhosas, experimentamos o vento patagônico, caímos e nos erguemos, nos cobrimos de pó, sacolejamos nas costeletas das estradas ripiadas, comemos e dormimos mal, mas todos foram ingredientes que fizeram desta aventura um feito único, absoluta e plenamente curtido por nós dois, Álvaro e Adelaide, e ficará para sempre gravado em nossas lembranças.

2 comentários:

  1. Álvaro e Adelaide, este post é uma lição de vida e sensibilidade pelos detalhes que ela nos proporciona. Parabéns pela capacidade de sonhar, acreditar e executar... A riqueza de detalhes é simplemente emocionante... que só um portoalegrense pode entender... João Alexandre

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  2. Desde de pequeno fomos acostumados a ter varias motocicletas para andar.

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