sábado, 23 de abril de 2011

Quanto Vale o Seu Tempo ?

Compartilho o ótimo texto de Fábio Colaferro, extraído do seu também excelente blog: Vida Vivida:

Quanto Vale o Seu Tempo?

Qual o valor do seu tempo ?
Todos os sentimentos, emoções e declarações que eu leio sobre as viagens de moto são tocantes e verdadeiros! Compartilho com cada um deles. Mas nestes relatos ainda faltava alguma coisa que eu não sabia o que era …
Ouvindo o Amir Klink em uma palestra, contando sobre sua primeira aventura na travessia do Brasil à África, caiu a ficha para mim. Era o que estava faltando para completar as definições deliciosas sobre estes momentos. Ele disse: “- Tudo o que eu queria, por um ano, era ser o dono do meu tempo !”.
Achei este pensamento sensacional e, para mim, este é o grande barato das viagens de moto. Ser dono do seu tempo por uns dias que seja, nem precisa ser doidão como ele que fica um ano vagando no oceano. Mas o importante é isto: ser dono do próprio tempo e fazer o que quiser com ele. Um dos maiores luxos do ser humano, pois o tempo é o bem mais precioso que temos!
Por outro lado, como ele próprio diz, por mais que estivesse sozinho no mar, descobriu que isto é uma ilusão. Conseguimos ser proprietários somente parciais do tic-tac. No dia seguinte vêm os afazeres obrigatórios. No caso dele, produzir água potável, consertar o barco, preparar as refeições, etc. No nosso, tirar as malas, abastecer, procurar hotéis, calibrar os pneus, se apressar na estrada para não chegar após escurecer.
Mas a despeito destes aspectos operacionais, o tempo é todo seu! E naqueles dias, nenhum oficial de justiça, gerente de banco, aquele vizinho ou cunhado vai te achar e te chatear!
Apesar de ter os roteiros traçados, temos toda a liberdade para acelerar mais, ir além, parar totalmente, mudar os rumos ao bel-prazer.
Eu gosto das “viagens-solo”: aquelas paradas em que o clique só faz sentido para mim. Manobras complexas … parar, voltar 500 metros, estacionar, tirar as luvas, retirar a câmera e captar o momento. O registro de um estado de espírito quando sou tomado por viva admiração, encantamento! Aquelas coisas que provocam fascínio e sedução em mim, mas não necessariamente em você!
E escrevendo isto, vou tendo a certeza do meu egoísmo. Mas a verdade é que possuir o tempo é algo tão raro em nossas vidas que quando isto é possível, eu valorizo esse privilégio. Inteligentemente, deixo o sentimento de culpa de lado, constato que eu me mereço e a jornada se torna ainda mais prazerosa.
Em tempo: “viagens- solo” têm as suas desvantagens, como tudo na vida. É como a piada do cara que come a Sharon Stone em uma ilha deserta e sua aflição por não ter ninguém para contar ! Além de não poder culpar nem falar mal de ninguém, nem contar mentiras ou ampliar os seus feitos.
No dia-a-dia temos que nos adequar ao tempo dos outros: do filho, do chefe, dos boletos de pagamento que chegam implacavelmente antes do vencimento. Somos conduzidos a nos adequar aos padrões e comportamentos que os outros têm em relação à nós ou pior, em relação à posição que você ocupa. Todos estes são fatores ladrões do nosso tempo! Verdadeiros saqueadores!
E o mais incrível é que por vezes ficamos com vergonha ou receio do que os outros vão pensar das nossas aventuras, das viagens, da “vagabundice” de ficar por aí andando de moto.
- Ora, vá a mer&%#! Ninguém tem nada a ver com isto (fora a sua esposa, filhos, pessoas que dependem de você, etc. Ok, juntos eles somam mais ou menos um quarteirão, mas …ok).

* * * * *

Só você e o vento. Avaliando momento a momento suas burradas, suas histórias, suas decisões, sua vida. Sem precisar dar satisfação a ninguém.
Para alguns, principalmente para os melhores amigos, já desisti de explicar minhas viagens. As perguntas mais delicadas são mais ou menos assim:
“ – Não é a coisa mais imbecil do mundo andar 10 mil quilômetros em 20 dias ? De moto ainda ?! Sozinho ? Sempre te achei meio inconseqüente !“
Não, não me acho um total imbecil por isto. Ruim é viver a vida sem reservar parte dela só para você. O instante de vida eudaimônico. Aquilo que não é meio para nada porque já é o máximo que se pode pretender.
Este conceito, que é bem legal, diz que, quando há eudaimonia, a pergunta sobre a finalidade do que se está fazendo não pode encontrar nenhuma resposta. É a vida que vale por ela mesma, no instante em que é vivida.
Sou pretensioso e quero olhar para trás dizendo: “ – Minha vida foi bem vivida !”.