domingo, 15 de abril de 2012

Ligando os Faróis

Aquarela de Edgar Vasques, representando o Farol da Barra do Chuí.

Um local que ouso classificar como um dos mais fascinantes do mundo é o litoral sul do estado do Rio Grande do sul, mais precisamente entre os municípios de Balneário Pinhal até São José do Norte e depois da Barra de Rio Grande na Praia do Cassino, até a Barra do Chuí, fronteira com o Uruguai. Esta extensa faixa de areia, a propósito, batizada a partir de Cassino até Barra do Chuí, como a maior praia do mundo (Esclareço, para não gerar suscetibilidades, que incluo neste denominação as praias dos dois municípios: Rio Grande com  a Praia do Cassino e Santa Vitória do Palmar, com a Praia de Hermenegildo, ambas brigando pela titularidade de maior praia do mundo). Deixando as disputas locais de lado, o que importa é que esta extensa faixa litorânea é sem dúvida fascinante pela sua geografia peculiar, com extensas faixas de areia, sendo uma das maiores do mundo de mar aberto, sem baia, sem vegetação e sem montanha, onde a praia é limitada pelo mar e por dunas em toda sua extensão, e por diversas lagoas e banhados, com destaque para a reserva Lagoa do Peixe e a incrível Estação Ecológica do Taim. Fascinante também pela sua inospidez e isolamento, sendo seu percurso em boa parte, de difícil acesso e recheado de adversidades, tendo em vista o terreno em alguns locais de areia fofa e córregos, além da maré traiçoeira, que aliada ao clima, pode colocar o viajante em apuros. Também fascinante pela história que guarda, sendo local de muitos naufrágios e local de pirataria ainda nos dias hoje. Cemitério de embarcações, no seu percurso o viajante pode ver esqueletos de barcos e navios. Também fascina pela incrível fauna marítima, com aves, tartarugas, baleias, focas, leões marinhos e outros animais. Mas apesar de seu isolamento, constata-se a absurda intervenção do homem e pelo caminho a triste visão de uma enorminadde de lixo, aliás do mundo todo, trazido pelas mares oceânicas.

Este incrível local foi motivo de um projeto empreendido pelo motociclista Chardô, já personagem de outros post deste blog, chamado de "Ligando os Faróis". Ele juntamente com o motociclista Luis Medeiros, conhecedor da região, fez em 2007 uma viagem partindo do extremo norte do litoral gaúcho, na barra do Rio Mampituba em Torres, terninando no extremo sul do litoral gaúcho, na barra do Rio Chui, na fronteira com o Uruguai. Uma viagem de 700 km realizadas com uma Falcon NX 400 e uma DR 650, visitando e fotografando todos os 19 faróis deste percurso.
Uma incrível e inspiradora viagem, registrada em um vídeo de 10 minutos e no relato que transcrevo a seguir:

Dias ensolarados com temperaturas entre 14ºC e 27ºC, ventos fracos de sudeste, umidade relativa em torno de 60%, lua cheia mudando para minguante. Taboa de marés indicando baixas com oscilações de queda nos horários previstos da viagem.
Estas eram as previsões do tempo para cinco dias no final de novembro de 2007, cujas condições reunidas foram favoráveis e decisivas para colocar em prática um antigo projeto de conhecer os faróis que orientam a navegação no litoral do Rio Grande do Sul.
Para tal feito, tive a parceria do amigo motociclista de Viamão-RS, Luis Medeiros, que nasceu em Mostardas e conhece bem a região. Utilizamos motos leves, NX4 e DR650, sem muitos preparativos e equipamentos.
Foram mais de 700km, do Rio Mampituba, divisa com Santa Catarina, até a Barra do Chuí, fronteira com o Uruguai. Rodando pela praia e contornando em 3 obstáculos: Barra do Rio Tramandaí, Barra da Lagoa do Peixe e Barra de Rio Grande.
Atravessamos uma área chamada “concheiro”, com extensão de aproximadamente 14km, onde existem grande quantidade de conchas misturadas a areia fofa que impede a passagem, pois atola facilmente, sendo possível somente pela beira da praia, na maré baixa, junto a onda que avança e molha a areia, tornando mais firme. Mas se parássemos aqui também ficaríamos atolado e possivelmente não conseguiríamos recuperar a moto.
Visitamos e fotografamos todos os faróis: Mampituba Norte (10m de altura), Mampituba Sul (10m), Torres (46m), Arroio do Sal (40), Capão da Canoa (26m), Tramandaí (23m), Cidreira (30m), Berta (40m), Solidão (21m), Mostardas (38m), Conceição (30m), Estreito (40m), Barra (31m), Molhe-Leste (12m), Molhe-Oeste (12m), Sarita (37m), Verga (11m), Albardão (44m) e Chuí (30m). Mas encontramos também muita poluição em toda extensão, muitas garrafas pet, sacos plásticos, vidros, lâmpadas, cordas de nylon, pneus velhos, caixas de leite tetra pack. Muitos navios naufragados, com estruturas que se enterram a cada ano. Também vimos a agressão a vida, muitas tartarugas centenárias e golfinhos mortos por redes de pesca. Restos de baleia e leão marinho.
A costa gaúcha é a mais extensa praia do Brasil e também uma das maiores do mundo de mar aberto, sem baia, sem vegetação e sem montanha, com exceção de Torres. A extensa faixa de praia é limitada pelo mar e por dunas em quase toda sua extensão, e também por 61 lagoas e banhados como a reserva do Taim.
Na região da metade sul desta longa faixa deserta, grandes bandos de aves migratórias, que se deslocam do hemisfério norte ou sul, utilizam para se alimentar e procriar, principalmente na Estação Ecológica do Taim e no Parque Nacional da Lagoa do Peixe.
Esta região também ficou conhecida como Campos Neutrais ou “terra de ninguém” (Reconhecida pelo Tratado de Santo Ildefonso – 1777 – entre Portugal e Espanha, onde a Espanha ficaria com a Colônia do Sacramento e devolveria a Portugal as terras ocupadas no atual estado de Santa Catarina e Rio Grande do Sul).
Isolada e pouco habitada esta foi a região ideal para esconderijo de bandoleiros que atraiam navios para a beira da praia afim de assaltá-los. Aqui se estabeleceu um grupo mafioso sob o comando de refugiados italinos da Calábria. Não se sabe exatamente quando eles chegaram à região, mas é quase certo que isso ocorreu nos primeiros anos da antiga Campos Neutrais.
A região também é conhecida como cemitério de navios, pois o mar aberto com ciclones e grandes ondas já provocaram vários naufrágios. Nos 267 anos de historia do Rio Grande do Sul contam-se ao menos 270 naufrágios em sua costa. Estudiosos apontam uma clara relação entre os naufrágios e a passagem de frentes frias pela região. Mas o total de naufrágios, segundo estes mesmos estudos, pode ser bem superior, porque não há um levantamento confiável relativo aos últimos 60 anos.


Um comentário:

  1. PREZADOS AMIGOS EXPEDICIONARIOS, SENSACIONAL ESSA TRIP DE AVENTURA, BELAS IMAGENS.
    PARABENS PELO ESPIRITO AVENTUREIRO.

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