sábado, 12 de maio de 2012

A Música da Alma


Nunca fui um grande conhecedor de músicas. Neste aspecto me considero um completo analfabeto musical, o que não significa que não aprecie escutar uma boa música, especialmente quando me agrada, independente do gênero, estilo ou o que quer que o valha. Para mim, basta gostar. O sensacional nesta história de música é o quanto ela dispara algum dispositivo em nosso cérebro e causa, conforme a música, as mais diversas sensações. Tem uma em especial que para mim é muito cara e sinônimo de algumas importantes sensações. Trata-se da música tema do filme “Cinema Paradiso”, (no original Nuovo Cinema Paradiso), um filme italiano de 1988, escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore. a propósito, não só um filme, mas sim uma poesia cinematográfica, uma obra de arte, que merece ser assistida por todos (Me arrisco a considerar como o filme mais marcante que já assisti). Um filme absolutamente maravilhoso. 
Trailler do Filme: Nuovo Cinema Paradiso
Trata-se da história de Salvatore Di Vita, um  cineasta bem-sucedido que vive em Roma. Um dia ele recebe um telefonema de sua mãe avisando que Alfredo está morto. A menção deste nome traz lembranças de sua infância e, principalmente, do Cinema Paradiso,  para onde Salvatore, então chamado de Totó, fugia sempre que podia depois que terminava a missa (ele era coroinha). No começo, ele costumava espreitar as projeções através das cortinas do cinema, que o padre via primeiro para censurar as imagens que possuíam beijos, e fazia companhia a Alfredo, o projecionista. Foi ali que Totó aprendeu a amar o cinema. É na sala de projeção do cinema chamado Paradiso, onde todos os habitantes da pequena cidade de Giancaldo se reúnem e se entretêm, que Salvatore cresce. É Alfredo que ensina tudo sobre cinema do pós-guerra (Estamos nos anos 50). Após um caso de amor frustrado com Elena, a filha do banqueiro da cidade, Totó deixa a cidade e vai para Roma, retornando somente trinta anos depois, por causa da morte de Alfredo. Ao final, o Novo Cinema Paradiso, já abandonado, acaba demolido pela prefeitura para construir um estacionamento. Voltando para Roma, Totó assiste a uma fita com todas as imagens de beijo que o padre da cidade havia censurado. Uma passagem do filme, a propósito, antológica, emocionante e arrebatadora. A projeção das cenas  recuperadas, cortadas pelo conservador e engraçado padre daquela pequena comunidade italiana (guardião da moralidade e bons costumes), coladas pelo agora cineasta, pedaço a pedaço, e novamente transformadas em um rolo de filme, é acompanhada pela belíssima música de Ennio Morricone, o maestro autor desta composição, que assim como o filme considero outra obra-prima.
Esta música para mim, é sinônimo de saudade. Saudade de um tempo que não volta, de uma vida já vivida, de pessoas queridas que não mais estão entre nós. Sempre me emociono muito ao ouvi-la. Uma música que toca a alma e o coração.
O que esta música tem a ver com o motociclismo? Talvez nada. Mas sensações, saudades, histórias e tempos vividos marcados em nossa memória têm muito a ver com o motociclismo. Ao vivenciarmos cenários proporcionados pelas viagens de motocicleta, vivenciamos sensações, emoções, cheiros, sentimentos e lembranças que são patrimônio e legados que ninguém nos tira e são eventualmente deflagrados como naquelas sensações “Déjà vu”, expressão utilizada para definir a reação psicológica que nos faz ter a idéia de que já estivemos naquele lugar antes ou já vimos aquelas pessoas, enfim, uma expressão da língua francesa que significa, literalmente, já visto, já sentido, ou como eu disse, a sensação de uma vida já vivida.
Compartilho um concerto de Ennio Morricone, realizado em Veneza em 2007, com a música do Cinema Paradiso, como forma de homenagear todas as mães, em especial a minha mãe e também a mãe do Artur. Mães que são as responsáveis pelos melhores anos de nossas vidas, mães, responsáveis por este sentimento chamado saudades. Curtam a música com os ouvidos da alma.