domingo, 3 de junho de 2012

Motociclista, 70 anos, Surdo, Mudo e uma Viagem ao redor do Mundo.

Uma das coisas que mais gosto de fazer no blog, é colecionar histórias. Histórias de motociclistas, viajantes, aventureiros, malucos de todos os tipos e de todas as partes do mundo. E como tem história linda, surpreendente e interessante por aí. Hoje quero compartilhar a história do bielorrusso Vladimir Yarets, um senhor de 71 anos, surdo e mudo. É, até onde conhecemos, a primeira pessoa surda e muda com determinação e coragem para realizar um feito: uma viagem de volta ao mundo em uma moto.

Viajar sempre foi o maior sonho de Vladimir. Ele começou em 1967, percorrendo a totalidade do território da antiga URSS. Na ocasião, as autoridades soviéticas proibiam a emissão de licença para condução de motocicletas para surdos. No entanto, isto não o impediu de buscar seus sonhos. Foi para a estrada sem autorização, e ao retornar para casa com um pacote cheio de recortes de jornal testemunhando a sua "maratona", as autoridades locais finalmente se convenceram e lhe concederam a licença para dirigir. Sua família imaginou que o pai e marido inquieto se acalmaria com sua façanha, mas Vladimir sentia que isso não era suficiente.

A viagem de volta ao mundo foi iniciada no dia 27 de Maio de 2000, em Minsk, capital da República da Bielorrússia. Depois de viajar por toda a Europa, dirigiu-se para Marrocos e Ilhas Canárias. A viagem foi retomada a partir de um ponto exótico do mapa do mundo - Venezuela, após o que visitou a Ilha de Santa Lúcia e Porto Rico. Uma balsa levou sua moto para a República Dominicana, abrindo novos rumos para sua viagem - Haiti, Jamaica e Cuba. Após isto, o aventureiro bielorrusso seguiu rumo à Flórida, EUA. Depois de um bom tempo nas estradas americanas, ele conseguiu visitar todos os estados daquele país, com exceção do Alaska e Havaí.

Uma pequena cidade americana, Peoria (Rota 66), acabou por ser um ponto trágico da viagem de Vladimir Yarets. Ele foi forçado a ficar lá por muito mais tempo do que o inicialmente esperado - quase um ano. Em 13 de outubro, 2003, com o mau tempo e vento forte que soprava furiosamente, a moto de Vladimir colidiu com um caminhão. O viajante foi socorrido pela população local e levado para o hospital mais próximo com várias fraturas. Ele concluiu sua viagem em 3 de Outubro de 2011, após 380.000 km rodados em 127 países.

Um belo relato que descobri no blog A & K Motos, é o encontro entre o motociclista brasileiro Roberto Rezende e o Bielo Russo Vladimir, ocorrido em Maio de 2010, em Belo Horizonte, MG. Um belo e sensível texto que fala sobre amizade, preconceitos, descobertas e despedidas. Acompanhe também as fotografias, especialmente a impressionante bagagem levada por deste guerreiro russo em sua moto. Vladmir, um herói dos dias atuais, que tem de mim o mais alto respeito e admiração.


O texto abaixo é de autoria de Marcelo Rezende - BH/MG:

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.”
Às vezes, tudo o que tem que ser dito o é sem nenhuma palavra.
Às vezes, um segundo que antecede um acidente pode mudar nossas vidas.
Às vezes, em 5 horas em contato com uma pessoa dá para perceber que Deus realmente coloca anjos aqui na Terra.
Cheguei para almoçar em casa. Abri a porta e vi um par de botas com um russo dentro delas a dormir no sofá. Ao lado, dormia o meu filhote Dudu (agora, Duduzóviski).
Acordei o chupa-cabra para almoçarmos juntos.
O russo Vladimir Yarets, 69 anos, é surdo-mudo e está dando a volta ao mundo de moto. Já rodou mais de 430.600km. Partiu da Bielorrússia em 27/05/2000, deixando família e filhos.
Achei que bastaria escrever em inglês ou espanhol que ele entenderia. Putz....é bem verdade que idioma não é o meu forte e só falo bem a “linguagem universal do amor”, mas ele não entendia nada que eu escrevia.
Eu precisava saber quantos dias ele iria ficar lá em casa, o que queria fazer etc. Então a solução foi o Google Translate. Ele disse que não poderia dormir em BH, pois tinha prazo curto para chegar em Belém.
Almoçamos juntos lá em casa.
Até então, ele era um ser humano comum. Educado, simpático.
Mas após o almoço ele abriu suas pastas com mapas e álbuns e começou a me mostrar sua história, falar da sua família. Não me pergunte como, mas já conversávamos sem o Google numa boa. Ele me repreendeu pela minha “barriguinha”. Me ensinou alguns exercícios russos para vigor.
Nesse momento eu percebi que eu não estava “conversando” com um mortal. O cara, dentro de toda sua humildade, me mostrava a sua história. Interessante é que eu praticamente já escutava a sua voz. E eu imaginava quantas pessoas têm voz e só falam merda ou só usam as palavras de forma agressiva. Quantos têm ouvidos mas não escutam o que os semelhantes dizem. Pensava também sobre como o meu, já amigo de décadas, Vladimir Yarets, conseguia pilotar uma moto sem escutar o barulho do motor, da natureza e dos outros veículos.
A paz já tinha tomado conta da sala.
Fomos à garagem para ver a moto dele.
Não adianta querer fazer nenhum comentário: simplesmente olhe com calma a foto.
Nem cigano consegue carregar tanta coisa ao mesmo tempo. Manobrei a moto: tarefa árdua para quem não tem a “força” russa.
Seguimos para a BMW Euroville, onde iriam dar uma olhada rápida na moto para ele partir para Belém, com parada em Brasília.
Antes de dar a partida, ele colocou as mãos na GS 650 dele e indicou que era a melhor moto do mundo.
Com muita dificuldade ele vencia as subidas, descidas e curvas de Belo Horizonte. Não consegue inclinar a moto quase nada em função do peso e da posição das malas.
Chegando à Euroville, não precisa dizer que a concessionária parou para conhecer “o russo que está dando a volta ao mundo”.
As infinitas fotos já o estavam atrapalhando, pois ele queria partir logo, uma vez que prefere não pilotar à noite.
Eu tive a honra de indicar a saída da cidade e acompanhá-lo por uma centena de km de estrada. Prudência acima de tudo. Educação no trânsito. Quem tem que ir longe realmente não pode ir rápido.
Parei na estrada para me despedir.
Putz....sem nenhuma palhaçada: aquele cara já era amigo meu desde criancinha.
Fiz o sinal da cruz no seu capacete. Ele enfiou a mão na minha jaqueta, colocou a mão no lado esquerdo do meu peito e ficou um tempo assim, de olhos fechados.
E o anjo montou na moto e foi embora.
Fiquei ali na beira da estrada algumas dezenas de minutos. Todo mundo deveria ficar sentado à beira da estrada alguns minutos.
Por que ele é um anjo? Numa boa; não faço a menor ideia.
Mas que o Vladimir tem uma energia diferente, ele tem. Só tendo a oportunidade de ficar sem “oba oba” ao lado dele para poder perceber.
Doido? Absolutamente não. Ele aprende coisas novas todos os dias. Ele se integra diariamente e absolutamente com as duas mais preciosas criações de Deus: o ser humano e a natureza.
Tá vendo? Quem é o doido?
Texto em itálico e fotos de Marcelo Resende - BH/MG